quarta-feira, 24 de junho de 2009

Autor e autoria – Carlos Alberto Faraco

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“Este último [o autor-criador] é, para Bakhtin, um constituinte do objeto estético (um elemento imanente ao todo artístico) – mais precisamente, aquele constituinte que dá forma ao objeto estético, o pivô que sustenta a unidade do todo esteticamente consumado.” (p. 37)

“Mesmo que a voz do autor-criador seja a voz do escritor como pessoa, ela só será esteticamente criativa se houver deslocamento, isto é, se o escritor for capaz de trabalhar em sua linguagem permanecendo fora dela.” (p. 40)

“Posto em termos de linguagem, o princípio da exterioridade (a lógica imanente da criação estética) demanda do escritor que ele desista de sua linguagem, saia dela, liberte-se dela, olhe-a pelo olho de outra linguagem, desloque-a para outrem ao mesmo tempo em que se desloca para outra linguagem.” (p. 41)

“Para ele, a autobiografia não é (não pode ser) um mero discurso direto do escritor sobre si mesmo, pronunciado do interior do evento da vida vivida. Ao escrever uma autobiografia, o escritor precisa se posicionar axiologicamente frente à própria vida, submetendo-a a uma valoração que transcenda os limites do apenas vivido.” (p. 43)

FARACO, Carlos Alberto. Autor e autoria. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005, p. 37 – 60.

Bakhtin faz uma distinção entre autor-pessoa (escritor como pessoa) e autor-criador (função estético-formal que engendra uma obra). Para ele, o autor-criador compõe o objeto estético, dando-lhe forma. Mas como isso ocorre?
Segundo nos informa Faraco, a característica básica do autor-criador é materializar uma relação axiológica com o herói e seu mundo. Bakhtin, ao tratar do assunto, inclui no escopo da posição axiológica do autor-criador não só o herói e seu mundo (aos quais o autor-criador dá acabamento estético), mas também a forma composicional e o material. Isso significa que o objeto estético materializa escolhas de ordem composicional e de linguagem, as quais também resultam de um posicionamento axiológico – ressalte-se que a posição axiológica do autor-criador consiste, em última instância, em um modo de ver que direciona a construção do objeto estético e o olhar do leitor.
A questão valorativa - mais precisamente, o posicionamento valorativo que todo autor-criador assume - é, pois, central no pensamento bakhtiniano. De acordo com Bakhtin, no ato artístico, aspectos do plano da vida são destacados e isolados de sua eventicidade, organizados de uma nova maneira, subordinados a uma nova unidade e condensados em uma imagem acabada. O autor-criador, portanto, realiza a transposição de dados de um plano (o plano da realidade, da vida) para outro plano (o plano da obra) – e faz isso a partir de certa posição axiológica frente a uma realidade vivida e valorada. E é dessa maneira que o autor-criador dá forma ao conteúdo: a partir de uma dada posição axiológica, ele recorta os eventos da vida e reorganiza-os esteticamente. É nesse sentido que se pode compreender a afirmação bakhtiniana de que o autor-criador é o constituinte do objeto estético que lhe dá forma.
Há, ainda, outro ponto que caracteriza a distinção entre autor pessoa/autor-criador: a necessidade de deslocamento no plano da linguagem – esta compreendida como conjunto múltiplo e heterogêneo de vozes e línguas sociais. Assim, o discurso do autor-criador consiste em um “ato de apropriação refratada de uma voz social” (p. 40). Como se afirma, as idéias do escritor, quando passam a integrar a obra, tornam-se representações (imagens artísticas) de suas idéias, a refração delas.
Para Bakhtin, a criação artística só é possível se houver deslocamento. Em que consiste esse deslocamento? É o que ele chama de princípio esteticamente criativo na relação autor/herói, que é o princípio da exterioridade: “é preciso estar fora; é preciso olhar de fora; é preciso um excedente de visão e conhecimento para poder consumar o herói e seu mundo esteticamente” (p. 41). Nesse sentido, afirma-se que o princípio da exterioridade demanda que o escritor desloque-se de sua linguagem e olhe-a por olhos de outra linguagem (ou seja, o autor-criador deve trabalhar em uma linguagem enquanto permanece fora dela). Nesse ponto, o autor-criador é caracterizado por Bakhtin como voz social que dá unidade ao todo artístico.
Com relação à autobiografia, ela é usada por Bakhtin para confirmar seu postulado de que sem deslocamento não há ato criador. Portanto, mesmo na autobiografia é preciso que o escritor (enquanto autor-criador) assuma um posicionamento axiológico diante de eventos da própria vida, submetendo-os a uma valoração. Dessa forma, na autobiografia não há (e não deve haver) um discurso do escritor sobre si mesmo e a própria vida; o discurso deve transcender os limites do vivido (e, para isso, é necessário haver deslocamento, é necessário olhar a vida de fora). Assim sendo, pode-se concluir que, nos relatos autobiográficos, mesmo a imagem do autor real é representação; em síntese, o que Bakthin pretende dizer é que tudo na obra é representação – e é isso o que lhe confere o caráter artístico.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Bakthin × Flower e Hayes

Para estabelecer um diálogo entre as concepções de autoria e de enunciado de Bakthin e a proposição de Flower e Hayes sobre a escrita enquanto atividade de resolução de problemas, convém, em primeiro lugar, estabelecer o que Bakthin entende por enunciado e por autoria.
Segundo Bakthin, enunciado é a palavra em uso social, consistindo, sempre, em uma resposta. Sendo social, o enunciado só existe no ato de comunicação, podendo ser entendido como unidade de comunicação discursiva, impregnado de expressividade, emoções e valores do autor-criador. Para Bakthin, só o enunciado tem relação com a realidade e com o sujeito.
A autoria, em Bakthin, diz respeito a esse autor-criador, que é o sujeito do discurso, o inventor ativo do objeto, não se confundindo com o autor real. O autor-criador é quem dá forma não só esteticamente significativa a um conteúdo, mas também axiologicamente significativa: a partir de uma dada posição axiológica, ele recorta os eventos da vida e reorganiza-os esteticamente.
Para Bakthin, o procedimento de autoria está intimamente relacionado à questão do estilo, que também se insere no plano estético. Isso porque estilo é uma função: tudo o que o autor faz, todas as suas escolhas são únicas. Essa possibilidade de escolhas (de recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua) que individualiza a produção de um texto, por exemplo, marca o estilo individual do autor-criador. O estilo é, pois, um procedimento de autoria.
Além do estilo individual, Bakthin diz que há outras duas ordens de estilo: do gênero e da língua. E o gênero parece primordial, pois é ele que orienta o estilo individual, é ele que limita o campo de atuação do autor-criador.
Flower e Hayes, para tratar do processo de produção de texto, dizem que o escritor depara com um problema retórico, composto da situação retórica – público e tarefa – e dos seus objetivos – o leitor, o próprio escritor, o conteúdo semântico e a composição do texto. Ao produzir um texto, há, portanto, uma demanda que move o escritor a escrever. Ou seja, a primeira tarefa na produção textual é definir o problema a ser resolvido. Aqui também o escritor é autor-criador, é sujeito do discurso – logo, o que ele produz é enunciado, no sentido bakthiniano. Ele é criador porque, segundo Flower e Hayes, deve construir o(s) sentido(s) para seus enunciados, já que o sentido não está pronto, devendo apenas ser encontrado. E essa construção é feita por meio de um complexo processo intelectual, tendo como base o material da experiência que ele possui (para Bakthin o conteúdo se origina nos acontecimentos do plano real, sendo libertado dele pela forma estética).
Outro ponto interessante de diálogo são os gêneros. Para Flower e Hayes, os gêneros também têm um papel fundamental no processo de produção de texto. Isso porque, ao deparar com um problema, os escritores mobilizam repertórios de representações de problemas que são familiares a eles, entre as quais o conhecimento dos gêneros está incluído (as outras representações constituem o conhecimento sobre os leitores e os recursos lingüísticos). Nesse ponto, afirmam que há problemas para os quais é preciso construir uma representação única: esse caráter individual que pode ser dado ao texto é possível graças aos arranjos estilísticos que os gêneros permitem em maior ou menor grau (ou seja, para os autores, também é o gênero que orienta o estilo individual e limita o campo de atuação do autor-criador, tal como defende Bakthin). Os gêneros têm flexibilidade quanto ao arranjo das seqüências de texto e uso de recursos estilísticos. Por isso, Flower e Hayes dizem que existe uma diversidade de possibilidades de autoria nos diferentes gêneros de texto (endossando a posição de Bakthin).
Entre os objetivos do escritor (o leitor, o próprio escritor, o conteúdo semântico e a composição do texto), Flower e Hayes parecem dar um peso indiscutivelmente maior ao leitor, que é o interlocutor no processo de produção de texto. É indispensável estabelecer um ato complexo de fala, como afirmam, o que implica estabelecer um diálogo com o suposto interlocutor. Mais uma vez encontramos um ponto de aproximação com as idéias de Bakhtin, para quem a dialogia é primordial, já que todo enunciado é diálogo – segundo ele, a dialogia rege as relações entre enunciados. Nesse ponto, Flower e Hayes vão ao encontro do que Bakthin entende por diálogo com o interlocutor (há outras formas de diálogo): o autor-criador antecipa a reação do leitor, tecendo seu discurso em resposta ao que vai ser dito.
Considerando ainda o leitor, Flower e Hayes defendem que o escritor deve ter intenções nítidas sobre o efeito que deseja que o texto provoque no leitor – sendo esta a maneira mais eficiente de o escritor ter novas idéias durante o processo de produção textual. Aqui também é possível estabelecer um diálogo com Bakthin, para quem a obra de arte é resultado de uma atividade intencional do autor: todo ato de autoria é intencional (ressalte-se que Bakthin estava preocupado com a obra literária, especificamente, enquanto Flower e Hayes estão tratando do processo de produção de texto de modo amplo). Para Bakthin, considerar o destinatário (o que ele sabe sobre o discurso, suas convicções, simpatias etc.) determina “a escolha do gênero do enunciado e a escolha dos procedimentos composicionais e, por último, dos meios lingüísticos, isto é, do estilo do enunciado” (BAKTHIN, 2003, p. 302). Isso significa que, também para Bakthin, o leitor está em primeiro plano.