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“Este último [o autor-criador] é, para Bakhtin, um constituinte do objeto estético (um elemento imanente ao todo artístico) – mais precisamente, aquele constituinte que dá forma ao objeto estético, o pivô que sustenta a unidade do todo esteticamente consumado.” (p. 37)
“Mesmo que a voz do autor-criador seja a voz do escritor como pessoa, ela só será esteticamente criativa se houver deslocamento, isto é, se o escritor for capaz de trabalhar em sua linguagem permanecendo fora dela.” (p. 40)
“Posto em termos de linguagem, o princípio da exterioridade (a lógica imanente da criação estética) demanda do escritor que ele desista de sua linguagem, saia dela, liberte-se dela, olhe-a pelo olho de outra linguagem, desloque-a para outrem ao mesmo tempo em que se desloca para outra linguagem.” (p. 41)
“Para ele, a autobiografia não é (não pode ser) um mero discurso direto do escritor sobre si mesmo, pronunciado do interior do evento da vida vivida. Ao escrever uma autobiografia, o escritor precisa se posicionar axiologicamente frente à própria vida, submetendo-a a uma valoração que transcenda os limites do apenas vivido.” (p. 43)
FARACO, Carlos Alberto. Autor e autoria. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005, p. 37 – 60.
Bakhtin faz uma distinção entre autor-pessoa (escritor como pessoa) e autor-criador (função estético-formal que engendra uma obra). Para ele, o autor-criador compõe o objeto estético, dando-lhe forma. Mas como isso ocorre?
Segundo nos informa Faraco, a característica básica do autor-criador é materializar uma relação axiológica com o herói e seu mundo. Bakhtin, ao tratar do assunto, inclui no escopo da posição axiológica do autor-criador não só o herói e seu mundo (aos quais o autor-criador dá acabamento estético), mas também a forma composicional e o material. Isso significa que o objeto estético materializa escolhas de ordem composicional e de linguagem, as quais também resultam de um posicionamento axiológico – ressalte-se que a posição axiológica do autor-criador consiste, em última instância, em um modo de ver que direciona a construção do objeto estético e o olhar do leitor.
A questão valorativa - mais precisamente, o posicionamento valorativo que todo autor-criador assume - é, pois, central no pensamento bakhtiniano. De acordo com Bakhtin, no ato artístico, aspectos do plano da vida são destacados e isolados de sua eventicidade, organizados de uma nova maneira, subordinados a uma nova unidade e condensados em uma imagem acabada. O autor-criador, portanto, realiza a transposição de dados de um plano (o plano da realidade, da vida) para outro plano (o plano da obra) – e faz isso a partir de certa posição axiológica frente a uma realidade vivida e valorada. E é dessa maneira que o autor-criador dá forma ao conteúdo: a partir de uma dada posição axiológica, ele recorta os eventos da vida e reorganiza-os esteticamente. É nesse sentido que se pode compreender a afirmação bakhtiniana de que o autor-criador é o constituinte do objeto estético que lhe dá forma.
Há, ainda, outro ponto que caracteriza a distinção entre autor pessoa/autor-criador: a necessidade de deslocamento no plano da linguagem – esta compreendida como conjunto múltiplo e heterogêneo de vozes e línguas sociais. Assim, o discurso do autor-criador consiste em um “ato de apropriação refratada de uma voz social” (p. 40). Como se afirma, as idéias do escritor, quando passam a integrar a obra, tornam-se representações (imagens artísticas) de suas idéias, a refração delas.
Para Bakhtin, a criação artística só é possível se houver deslocamento. Em que consiste esse deslocamento? É o que ele chama de princípio esteticamente criativo na relação autor/herói, que é o princípio da exterioridade: “é preciso estar fora; é preciso olhar de fora; é preciso um excedente de visão e conhecimento para poder consumar o herói e seu mundo esteticamente” (p. 41). Nesse sentido, afirma-se que o princípio da exterioridade demanda que o escritor desloque-se de sua linguagem e olhe-a por olhos de outra linguagem (ou seja, o autor-criador deve trabalhar em uma linguagem enquanto permanece fora dela). Nesse ponto, o autor-criador é caracterizado por Bakhtin como voz social que dá unidade ao todo artístico.
Com relação à autobiografia, ela é usada por Bakhtin para confirmar seu postulado de que sem deslocamento não há ato criador. Portanto, mesmo na autobiografia é preciso que o escritor (enquanto autor-criador) assuma um posicionamento axiológico diante de eventos da própria vida, submetendo-os a uma valoração. Dessa forma, na autobiografia não há (e não deve haver) um discurso do escritor sobre si mesmo e a própria vida; o discurso deve transcender os limites do vivido (e, para isso, é necessário haver deslocamento, é necessário olhar a vida de fora). Assim sendo, pode-se concluir que, nos relatos autobiográficos, mesmo a imagem do autor real é representação; em síntese, o que Bakthin pretende dizer é que tudo na obra é representação – e é isso o que lhe confere o caráter artístico.
“Este último [o autor-criador] é, para Bakhtin, um constituinte do objeto estético (um elemento imanente ao todo artístico) – mais precisamente, aquele constituinte que dá forma ao objeto estético, o pivô que sustenta a unidade do todo esteticamente consumado.” (p. 37)
“Mesmo que a voz do autor-criador seja a voz do escritor como pessoa, ela só será esteticamente criativa se houver deslocamento, isto é, se o escritor for capaz de trabalhar em sua linguagem permanecendo fora dela.” (p. 40)
“Posto em termos de linguagem, o princípio da exterioridade (a lógica imanente da criação estética) demanda do escritor que ele desista de sua linguagem, saia dela, liberte-se dela, olhe-a pelo olho de outra linguagem, desloque-a para outrem ao mesmo tempo em que se desloca para outra linguagem.” (p. 41)
“Para ele, a autobiografia não é (não pode ser) um mero discurso direto do escritor sobre si mesmo, pronunciado do interior do evento da vida vivida. Ao escrever uma autobiografia, o escritor precisa se posicionar axiologicamente frente à própria vida, submetendo-a a uma valoração que transcenda os limites do apenas vivido.” (p. 43)
FARACO, Carlos Alberto. Autor e autoria. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005, p. 37 – 60.
Bakhtin faz uma distinção entre autor-pessoa (escritor como pessoa) e autor-criador (função estético-formal que engendra uma obra). Para ele, o autor-criador compõe o objeto estético, dando-lhe forma. Mas como isso ocorre?
Segundo nos informa Faraco, a característica básica do autor-criador é materializar uma relação axiológica com o herói e seu mundo. Bakhtin, ao tratar do assunto, inclui no escopo da posição axiológica do autor-criador não só o herói e seu mundo (aos quais o autor-criador dá acabamento estético), mas também a forma composicional e o material. Isso significa que o objeto estético materializa escolhas de ordem composicional e de linguagem, as quais também resultam de um posicionamento axiológico – ressalte-se que a posição axiológica do autor-criador consiste, em última instância, em um modo de ver que direciona a construção do objeto estético e o olhar do leitor.
A questão valorativa - mais precisamente, o posicionamento valorativo que todo autor-criador assume - é, pois, central no pensamento bakhtiniano. De acordo com Bakhtin, no ato artístico, aspectos do plano da vida são destacados e isolados de sua eventicidade, organizados de uma nova maneira, subordinados a uma nova unidade e condensados em uma imagem acabada. O autor-criador, portanto, realiza a transposição de dados de um plano (o plano da realidade, da vida) para outro plano (o plano da obra) – e faz isso a partir de certa posição axiológica frente a uma realidade vivida e valorada. E é dessa maneira que o autor-criador dá forma ao conteúdo: a partir de uma dada posição axiológica, ele recorta os eventos da vida e reorganiza-os esteticamente. É nesse sentido que se pode compreender a afirmação bakhtiniana de que o autor-criador é o constituinte do objeto estético que lhe dá forma.
Há, ainda, outro ponto que caracteriza a distinção entre autor pessoa/autor-criador: a necessidade de deslocamento no plano da linguagem – esta compreendida como conjunto múltiplo e heterogêneo de vozes e línguas sociais. Assim, o discurso do autor-criador consiste em um “ato de apropriação refratada de uma voz social” (p. 40). Como se afirma, as idéias do escritor, quando passam a integrar a obra, tornam-se representações (imagens artísticas) de suas idéias, a refração delas.
Para Bakhtin, a criação artística só é possível se houver deslocamento. Em que consiste esse deslocamento? É o que ele chama de princípio esteticamente criativo na relação autor/herói, que é o princípio da exterioridade: “é preciso estar fora; é preciso olhar de fora; é preciso um excedente de visão e conhecimento para poder consumar o herói e seu mundo esteticamente” (p. 41). Nesse sentido, afirma-se que o princípio da exterioridade demanda que o escritor desloque-se de sua linguagem e olhe-a por olhos de outra linguagem (ou seja, o autor-criador deve trabalhar em uma linguagem enquanto permanece fora dela). Nesse ponto, o autor-criador é caracterizado por Bakhtin como voz social que dá unidade ao todo artístico.
Com relação à autobiografia, ela é usada por Bakhtin para confirmar seu postulado de que sem deslocamento não há ato criador. Portanto, mesmo na autobiografia é preciso que o escritor (enquanto autor-criador) assuma um posicionamento axiológico diante de eventos da própria vida, submetendo-os a uma valoração. Dessa forma, na autobiografia não há (e não deve haver) um discurso do escritor sobre si mesmo e a própria vida; o discurso deve transcender os limites do vivido (e, para isso, é necessário haver deslocamento, é necessário olhar a vida de fora). Assim sendo, pode-se concluir que, nos relatos autobiográficos, mesmo a imagem do autor real é representação; em síntese, o que Bakthin pretende dizer é que tudo na obra é representação – e é isso o que lhe confere o caráter artístico.