segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Gêneros do discurso: unidade e diversidade

BRANDÃO, Helena Hathsue Nagamine. Gêneros do discurso: unidade e diversidade.
Polifonia – Revista do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem – Mestrado, n. 8, Cuiabá: Editora UFMT, s.d. Disponível em:
. Acesso em: 16 set. 2009.


Discurso e texto
“Por discurso, entendemos toda atividade comunicativa, produtora de sentidos, ou melhor, de efeitos de sentidos, entre interlocutores (sujeitos situados social e historicamente) nas suas relações interacionais. Pressupõe uma concepção de língua enquanto trabalho, atividade de construção de sentidos entre falantes na qual o que se diz significa em relação ao que não é dito, ao efeito que se pretende atingir; significa em relação ao lugar social de onde se diz, a quem se diz; significa em relação a outros discursos que circula(ra)m socialmente.
O discurso se manifesta lingüisticamente por meio de textos. Isto é, o discurso se materializa sob a forma de texto. É por meio do texto que se pode entender o funcionamento do discurso.
O texto, oral ou escrito, é construído no processo das relações interacionais, constituindo-se num todo significativo, independentemente de sua extensão. Como unidade complexa de significação, sua produção/compreensão implica levar em conta as condições de sua produção (situação de enunciação, interlocutores, contexto histórico social), mobilizando competências não só lingüísticas como competências extra-lingüísticas (conhecimento de mundo, saber enciclopédico, determinações sócio-culturais, ideológicas etc). Como objeto empírico, o texto constitui uma unidade significativa com começo, meio e fim.” (p. 2)

A tipologia do discurso em Bakhtin
“Mikhail Bakhtin (1992) insiste no caráter social dos fatos de linguagem, considerando o enunciado como o produto da interação social, determinado por uma situação material concreta assim como pelo contexto mais amplo que constitui o conjunto das condições de vida de uma dada comunidade lingüística.” (p. 2)

“[...]para Bakhtin, os discursos são produzidos de acordo com as diferentes esferas de atividade do homem. [...]” (p. 3)

“A riqueza e a diversidade das produções de linguagem são infinitas, mas organizadas. Bakhtin estende os limites da competência lingüística dos sujeitos para além da frase na direção do que ele chama os "tipos relativamente estáveis de enunciados", "o todo discursivo", isto é, os gêneros discursivos, para os quais somos sensíveis desde o início de nossas atividades de linguagem. Portanto, os gêneros do discurso são diferentes formas de uso da linguagem que variam de acordo com as diferentes esferas de atividade do homem.” (p. 3)

“Os gêneros se caracterizam pelos seus conteúdos temáticos, por estruturas composicionais específicas e pelos recursos lingüísticos (estilo) de que utilizam.
Bakhtin propõe distinguir: a) gêneros de discursos primários (ou livres) constituídos por aqueles da vida cotidiana, e que mantêm uma relação imediata com as situações nas quais são produzidos; temos um conhecimento intuitivo deles, adquirido nas nossas relações e experiências do dia a dia; b) gêneros de discursos segundos (ou estandartizados) que ‘aparecem nas circunstâncias de uma troca cultural (principalmente escrita) - artística, científica, sócio-política - mais complexa e relativamente mais evoluída’ [...]”. (p. 3). Para dominar os gêneros de discursos segundos, geralmente é necessária uma educação formal.

Tipos textuais e gêneros discursivos
Segundo Brandão, “as operações de textualização podem realizar-se nas formas de estruturas seqüenciais: narrativas, se o que se pretende é contar, apresentar acontecimentos [...]; descritivas, se o que se quer é caracterizar o objeto, fazê-lo conhecido [...]; argumentativas, se se quer refletir, comentar, avaliar, expor idéias, pontos de vista visando a uma determinada conclusão [...]; explicativas ou expositivas, se o que se quer é fazer compreender fatos, processos, transmitir saberes [...]” (p. 9). O gênero artigo de divulgação cientifica é, portanto, explicativo ou expositivo.

O gênero entre a estabilidade e a maleabilidade
Neste subitem do artigo podemos localizar a possível origem do gênero artigo de divulgação científica. Brandão afirma que os gêneros novos, ao surgirem, “ancoram-se em outros já existentes, eles não nascem do nada, como criações totalmente inovadoras; mas, como toda atividade de linguagem, sua gênese revela uma história, um enraizamento em outro(s) gênero(s).” (p. 4). E especificamente sobre artigo de divulgação científica: “[...] a passagem do ensaio científico para o artigo de divulgação científica indica o aparecimento de um novo gênero em função do auditório e dos propósitos comunicativos (interlocução com os pares ou com um público mais amplo, não especializado)”. (p. 5)

domingo, 20 de setembro de 2009

Artigo de divulgação científica

No artigo seguinte, há alguns dados sobre as possíveis origens do gênero artigo de divulgação científica, bem como algumas características do gênero em questão.
ROJO, Roxane. O letramento escolar e os textos de divulgação científica – A apropriação dos gêneros de discurso na escola. Linguagem em (Dis)curso – LemD, v. 8, n. 3, p. 581-612, set./dez. 2008.

Sobre as possíveis origens, selecionei os seguintes trechos:

“Por várias ordens de razão – mudanças sócio-históricas, interesse na qualificação dos trabalhadores, mudanças na dinâmica política e nas classes dominantes – a ciência foi um dos bens culturais – assim como as artes e os ofícios – que entraram na disputa social como bens cobiçados a partir do final da Idade Média. A própria idéia de di-vulgação, isto é, a ação de dar ao vulgo (à plebe, aos pobres, aos trabalhadores, aos que falam a língua vulgar – o povo) os bens do conhecimento, nasce desse movimento de acesso sucessivo das massas aos bens culturais valorizados, patronizada pelos intelectuais da Revolução Francesa – os iluministas que devem levar as luzes (da ciência) ao século XVIII. Os textos e discursos de divulgação científica e didáticos surgem justamente dessa vontade política: dar ao vulgo os bens culturais da ciência e do conhecimento [...]” (p. 587-588)

Tais bens culturais “foram disputados pelos homens livres, pelos padres da Igreja, pela burguesia, pelos iluministas e pelos trabalhadores. Ao final da chamada Idade Moderna, tínhamos já, em boa parte do Ocidente, uma situação em que todas as classes têm acesso à escolarização – inclusive, como mecanismo de disciplina(riza)ção dos ‘bárbaros’ –, que passa a ser obrigatória e universal. Em princípio, todos devem ter acesso à escola obrigatória e, logo, aos conhecimentos científicos selecionados para compor o currículo escolar.” (p. 588)

“[...] a vontade de divulgar os achados da ciência fora da escola, ao povo ou ao ‘homem do mundo’ data do ‘século das luzes’ – o século XVIII. A ação de maior impacto foi, justamente, a organização da Enciclopédia, por Diderot e d’Alembert [...]” (p. 588)

Dessa maneira, “a Enciclopédia inaugura uma nova maneira de fazer circular as idéias científicas e coloca à disposição do povo um enorme conjunto de textos organizados para divulgação. [...]” (p. 589)

A divulgação científica nasce, então, com o Enciclopedismo – e “continua sendo produzida por cientistas [e jornalistas] para divulgar conhecimento entre os leigos da forma mais abrangente possível. [...]” (p. 592).


Algumas características do gênero:

De acordo com Rojo (2008), a esfera de produção do gênero artigo de divulgação científica é a esfera científica e sua esfera de circulação é a jornalística (p. 592).
Para os textos de ciência, Rojo afirma que é possível distinguir três esferas de produção: os discursos primários, os discursos científicos e os discursos didáticos (p. 593-594).

“Nos gêneros da divulgação científica (artigos, reportagens), quando há diferenças na esfera de produção e circulação, [...] há certos mecanismos textuais que permitem ao autor dirigir-se ao leitor da maneira que julgar mais adequada ao leitor-modelo que tem um mente:
a) se for um leitor leigo, que o autor julga saber pouco sobre o assunto, ele escolherá um linguajar mais cotidiano, inclusive gírias; evitará a linguagem científica especializada, ou, se a usar, buscará explicar e exemplificar em linguagem cotidiana os termos; procurará dirigir-se diretamente ao leitor, como se estivesse interagindo numa conversa” (p. 594)


“[...] cabe lembrar que os gêneros modernos e pós-modernos da divulgação científica que se valem das publicações jornalísticas para circular, tais como os artigos, reportagens e notas, são também multissemióticos e hipertextuais [...]. Em primeiro lugar, apresentam recursos e linguagens visuais e verbais. Os recursos visuais são a forma de diagramação na página – texto cheio ou texto em colunas –; a presença de boxes, legendas e destaques e de ilustrações de diferentes tipos (paratextos). Os recursos verbais são o texto e suas subdivisões – título, introdução (olho), texto propriamente dito, subtítulos, textos dos boxes e das legendas.
Boxes, legendas, destaques trazem uma informação paratextual complementar ao texto verbal. [...] Os boxes, legendas e destaques são também importantes como elementos hipertextuais de linkagem ou remissão. Essas características hiper e paratextuais importam para o modo como se lê o texto, ou seja, para as práticas de letramento que sobre ele se exercem em eventos específicos.
Também as características multissemióticas desses gêneros impactam as práticas/eventos de letramento e de leitura. Em primeiro lugar, há diferentes tipos de ilustração: algumas, simplesmente ilustram ou exemplificam, tornando o texto menos monótono; outras acrescentam maiores informações. Outras ainda acrescentam informações novas que podem ser decisivas para a compreensão do texto, por exemplo, os gráficos e infográficos” (p. 595)

Gêneros do discurso

Nosso grupo trabalhará com o gênero artigo de divulgação científica. Antes de tratar especificamente desse gênero, acho interessante abordar o próprio conceito de gênero - para, depois, falarmos das possíveis origens do artigo de divulgação científica. Nesse sentido, selecionei alguns trechos dos Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa – 1ª a 4ª séries.
Sobre o conceito de discurso:
“[...] as escolhas feitas ao dizer, ao produzir um discurso, não são aleatórias — ainda que possam ser inconscientes —, mas decorrentes das condições em que esse discurso é realizado. Quer dizer: quando se interage verbalmente com alguém, o discurso se organiza a partir dos conhecimentos que se acredita que o interlocutor possua sobre o assunto, do que se supõe serem suas opiniões e convicções, simpatias e antipatias, da relação de afinidade e do grau de familiaridade que se tem, da posição social e hierárquica que se ocupa em relação a ele e vice-versa [...]” (p. 22)

“O discurso, quando produzido, manifesta-se lingüisticamente por meio de textos” (p. 23).
O discurso “refere-se à atividade comunicativa que é realizada numa determinada situação, abrangendo tanto o conjunto de enunciados que lhe deu origem quanto as condições nas quais foi produzido.” (p. 23)
[...] “todo discurso se relaciona, de alguma forma, com os que já foram produzidos. Nesse sentido, os textos, como resultantes da atividade discursiva, estão em constante e contínua relação uns com os outros.” (p. 23)
Sobre o conceito de texto:
“[...] texto é o produto da atividade discursiva oral ou escrita que forma um todo significativo e acabado, qualquer que seja sua extensão. É uma seqüência verbal constituída por um conjunto de relações que se estabelecem a partir da coesão e da coerência. Esse conjunto de relações tem sido chamado de textualidade. Dessa forma, um texto só é um texto quando pode ser compreendido como unidade significativa global, quando possui textualidade.” (p. 23)
Sobre o conceito de gênero:
“Todo texto se organiza dentro de um determinado gênero [na concepção bakthiniana]. Os vários gêneros existentes, por sua vez, constituem formas relativamente estáveis de enunciados, disponíveis na cultura, caracterizados por três elementos: conteúdo temático, estilo e construção composicional. [...] a noção de gêneros refere-se a ‘famílias’ de textos que compartilham algumas características comuns, embora heterogêneas, como visão geral da ação à qual o texto se articula, tipo de suporte comunicativo, extensão, grau de literariedade, por exemplo, existindo em número quase ilimitado." (p. 23)

"Os gêneros são determinados historicamente. As intenções comunicativas, como parte das condições de produção dos discursos, geram usos sociais que determinam os gêneros que darão forma aos textos.” (p. 23)
Os trechos seguintes podem justificar a relevância do estudo dos gêneros (entre os quais, o gênero de divulgação científica):
“Todo texto pertence a um determinado gênero, com uma forma própria, que se pode aprender. Quando entram na escola, os textos que circulam socialmente cumprem um papel modelizador, servindo como fonte de referência, repertório textual, suporte da atividade intertextual . A diversidade textual que existe fora da escola pode e deve estar a serviço da expansão do conhecimento letrado do aluno.” (p. 28)
“O trabalho com produção de textos tem como finalidade formar escritores [pessoas capazes de redigir] competentes capazes de produzir textos coerentes, coesos e eficazes. [...]” (p. 47)

[...] “Um escritor competente é alguém que planeja o discurso e conseqüentemente o texto em função do seu objetivo e do leitor a que se destina, sem desconsiderar as características específicas do gênero.” (p. 48)